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sábado, 12 de janeiro de 2013

Templo do Puma, imperdível para quem é movido a perguntas

Bem pertinho de Tiahuanaco, fica o sítio de Puma Punku. Algo aí em torno de 2-3 km. O guia estava passando batido, mas pedimos para dar uma paradinha para olhar pois havíamos visto no Ancient Alliens e eu não perderia a chance de ver também ao vivo. Segundo o guia, Puma Punku é um dos sete templos da civilização tiwanacota nas proximidades do sítio principal. Não sei quais são e nem onde estão os outros seis, mas este é em homenagem ao puma. A época de construção é o mesmo do sítio principal, ou seja, muito, muito antigo... o trabalho de restauração ainda está incompleto, mas pudemos ver portais muito semelhantes à Porta do Sol e as tais estruturas em forma de H mostradas no Ancient Alliens. As pedras usadas na construção de Puma Punku - assim como as usadas no sítio principal - não são do local e não há explicação razoável sobre como elas foram parar lá. Tiahuanaco impressiona, mas ainda assim a gente consegue imaginar ter sido construída por mãos humanas porque, com exceção dos monolitos, estamos falando de blocos relativamente pequenos de pedras. Puma Punku incomoda porque o que parecia humanamente possível em Tiahuanaco cai por terra em Puma Punku.

Visão geral do sítio de Puma Punku.
Um dos blocos de pedra. A pessoa na foto tem mais de 1,8 m de altura, portanto este bloco tem tranquilamente mais de 4 x 4 x 1,2 m... como foi parar lá se não há registros de uso de animais de tração ou rodas pela civilização tiwanacota? O guia falou que foi trazida de regiões próximas sobre roletes de troncos (detalhe: não há árvores na proximidade, a vegetação é rasteira pela alta altitude)... ele falou que milhares de homens se organizaram para trazer cada bloco de pedra. E minha cabeça fica aqui perguntando: mesmo que os homens conseguissem entrar debaixo da pedra para carregá-la morro acima, quantos homens caberiam debaixo dela? 30? 40? 50? eles dariam conta de tanto peso?
Desenhos nas pedras, feitos com precisão milimétrica.
Mais desenhos... o guia explicou que essas aberturas em forma de cruz eram usadas para encaixar vigas para colocar peças de construção na posição vertical.
Os intrigantes Hs que vi no Ancient Alliens. Não tinha como saber o tamanho, mas eles medem cerca de 1m de altura e são, é claro, construídos em pedras únicas. É como se fossem peças de um Lego gigantesco.
Portal semelhante à Porta do Sol, com os mesmos homens com asas. As aberturas na base são para encaixar em peças de metal de forma que o portal fica perpendicular ao solo.

Ancient Alliens e eu, em Tiahuanaco

Minha relação com a televisão e os filmes é conflituosa. Por um lado, gosto de conhecer aquilo que ainda não conheço. Por outro, me frustro por ainda não conhecer. E é esse o combustível para eu botar o pé na estrada e ir conferir... Aí, as pessoas próximas vivem me mandando sugestões sobre o que assistir e que lugares visitar. Foi assim que conheci o documentário no Netflix, chamado Ancient Alliens. Ele se fundamenta, basicamente, num livro que li há muitos, mas muitos, anos atrás. Chama-se 'Eram os deuses astronautas?', do von Daeniken

Foi vendo esse seriado que fiquei sabendo da existência de Tiahuanaco, na Bolívia. Pelo que andei lendo, são ruínas que beiram aí 3.000 anos, ou seja, muito antes dos incas e próximo ao antigo Egito. Eu já conhecia ruínas de civilizações precolombianas (maias, incas, astecas, olmecas), mas a tiwanacota era novidade para mim. Resultado: menos de meio ano depois de assistir ao seriado, lá estava eu no Altiplano Boliviano...

Os tiwanacotas entendiam o mundo em três planos: o superior (dominado pelo condor), o terreno (dominado pelo jaguar) e o inferior (dominado pela serpente). Essa simbologia está presente nas ruínas e é semelhante às crenças incas.

Ruínas de Tiahuanaco ou Tiwanaco. Ficam a 70 km de La Paz, aproximadamente, e é muito fácil conseguir uma empresa que faça o transporte por um custo relativamente baixo. O local tem dois museus e as ruínas, propriamente.
Cronologia da civilização Tiwanacota (em azul). Ela iniciou mais ou menos na mesma época que o Antigo Egito e perdurou até um pouco antes do início da civilização Inca.
Extensão dos domínios dos Tiwanacotas: parte da atual Bolívia, Paraguai e Peru, no Altiplano,  em uma condição abiótica adversa (altitude: próximo a 4.000 m, temperatura média anual < 10ºC, clima seco).
Porta do Sol, um dos principais achados do sírio. Mostra um homem importante no centro, rodeado por 'homens com asas'.
Detalhe da Porta do Sol.
Um dos monolitos do sítio (Monolito de Ponce). Segundo o guia, mostra um homem poderoso (governamente) com dois cetros na mão. Mede mais de 2 m de altura e foi construído em uma pedra única.
Detalhe dos homens com asas.

Parede do templo.
Visão geral das ruínas, mostrando o templo, o templete subterrâneo e o Monolito de Ponce.
Interior do templete subterrâneo. São mais de 150 cabeças de pedra, uma diferente da outra.
Mais cabeças. Gostaria de estar passando bem neste dia para ter tirado foto de todas as cabeças do templete.



Mais um monolito, este no templete.


Como disse, li o livro do van Daeniken há muito tempo, mas, na época, foi tão absolutamente convincente que fiquei com isso na cabeça. O seriado só fez reforçar minha convicção de que fomos visitados. E as visitas a tantos sítios deixam claro que nada é montagem, que tudo que o livro e o seriado dizem está ali, para ser visto e questionado. Portanto, se alguém tiver uma explicação mais plausível do que a dos deuses astronautas, por favor, compartilhe... 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Minúsculo Dicionário de Portuñol - parte II

Há uns dois anos, escrevi a primeira edição do meu Minúsculo Dicionário de Portuñol. A página é uma das mais visualizadas do blog e já teve acessos da Guatemala, Colômbia, Argentina, Espanha e outros países de língua Espanhola... e também de países onde o Espanhol não é a língua oficial, como a EUA, Áustria, etc. E Brasil, é claro.

O grande paradoxo é:
(1) Português e Espanhol são suficientemente parecidos do ponto de vista gramatical para que todo brasileiro pense que é só mudar o sotaque e sair sendo entendido pelos hispânicos;  
(2) Português e Espanhol possuem vocábulos / significados suficientemente diferentes para fazer muito brasileiro pagar micos fenomenais.

A gente faz umas analogias e acaba chegando a conclusões desastrosas. Vamos lá. Comecemos com uma comida que faz parte da dieta de vários países hispânicos da América do Sul.
  • Olho = Ojo 
  • Coelho = Conejo
  • Alho = Ajo
  • Ervilha = Arveja
  • Folha = Hoja
  • Milho = ??
Em Portunhol, a pior coisa que você pode fazer é acreditar que existe uma regra lógica, um raciocínio a seguir... se LH vira J, então milho vira mijo? Nãooooooooooo! Milho não vira mijo, mas muita gente poderá (desculpe, é inevitável) mijar de rir se você pedir um mijo para comer. Milho é maiz ou elote ou choclo (depende do país). Veja também que choclo não tem nada a ver com chocolate. E que, ao pedir pastel de choclo numa padaria, não espere uma massa fina, frita e recheada com creme de chocolate... Da mesma forma, não mate ninguém de dar risada pedindo  'buelo de mijo', hein?

Choclo negro, utilizado para produzir a chicha morada, uma bebida muito apreciada no Peru e outros países andinos.

Pastel de choclo = bolo de milho
Isso de pastel, bolo e torta confunde mesmo. Bolo em Português vira pastel em Espanhol. Torta em Português vira pye em Espanhol. Mas, se for torta de massa folhada, vira mil hojas. Croissant vira medialuna. Pudim pode virar budin mas somente se for o pudim-de-pão. A velha e deliciosa receita de pudim de leite condensado se chama Crema Volteada. Portanto, se não quer confusão na hora de receber sua sobremesa (postre), se quiser pudim, diga 'crema volteada'. Se vc pedir budin, irá receber o de pão...

Budin = pudim de pão
Crema volteada = pudim de leite condensado
Pye = torta

E já que estamos na padaria, que tal um bom pionono?

Pionono = rocambole

E para beber? Que tal uma 'coca personal'? Aprendi esta semana, coca personal é aquela garrafinha de vidro, que eles consideram como porção individual. A boa e velha KS do Brasil (aprendi isto ontem com um brasileiro doido por coca-cola). Aprendi também recentemente, que a Coca Cola usa no Peru embalagens inteligentes que mostram quando a coca-cola está gelada suficiente. Vejam abaixo. Não tem nada a ver com a rivalidade entre celestes e brasileiros, é apenas uma forma de evitar que as pessoas tomem coca-cola quente.
Embalagens inteligentes da Coca-Cola no Peru indicam quando o conteúdo está na temperatura ideal para consumo.

Mas e se ela estiver quente? Bom, aí tem que dar um jeito para fazer ela ficar gelada, certo? Mas, lembrem: helado é sorvete. Se num bar ou restaurante você pedir helado, vão te trazer sorvete de massa. Gelo é hielo, copo é vaso e taça é copa. Ou seja, você vai precisar de un vaso de hielo e não uma copa de helado

Se quiser tomar com canudinho, aí, sim, pode pedir sorvete, mas tome cuidado para não ser mal interpretado. Dependendo do país, sorvete quer dizer canudo. Dependendo do país, tem um significado impróprio para este blog. Na dúvida sobre pedir ou não sorvete, peça um popote.

De popote ó en el vasito, no importa. Agora, você quer é (desculpem novamente) mijar. Não adianta dizer que quer 'mijar' puxando o J como em conejo, oreja, etc. Mijar se diz mear. Ou, tecnicamente, orinar. Ou, educadamente, 'permiso, voy al baño'. Sim, baño é o banheiro. Que também poderá estar identificado por uma placa de letras garrafais que diz: S.S.H.H., abreviação para Servicios Higiénicos.
S.S.H.H. = Servicios Higiénicos (toalete)
Na hora de pagar sua conta... o cartão (tarjeta e não cartón) é amplamente aceito nas cidades turísticas, tanto na função de crédito quanto de débito (e com os mesmos nomes - crédito e débito). No entanto, se alguém perguntar a você se pode 'cancelar en su tarjeta', diga que sim. Cancelar, neste contexto é o equivalente a pagar. Ou seja, a pessoa está cancelando uma dívida que você tem com ela.

Comeu e bebeu todas e agora está passando mal? Então corre pro botiquin, mas toma cuidado com as gibas* no caminho!
Botiquín = farmacinha

*Gibas no Peru é a mesma coisa que túmulos na Guatemala. Não sabe o que é? Então volte para a parte I do Minúsculo Dicionário de Portuñol.

Todo o meu respeito às cholas

Quem já foi para a Bolívia sabe: as cholas estão por toda a parte. Aquelas senhoras de tranças longas e saias compridas, paramentadas com esmero. Impossível encontrar um quarteirão sem cholas. Chola, na Bolívia (pelo menos nos locais que visitei) é sinônimo de mulher. Fiquei impressionada em La Paz, quando abri a janela do quarto às 6 da manhã e a rua já estava repleta de cholas vendendo seus artigos, subindo e descendo as ladeiras da mesma forma como se anda à beira mar. Ficamos no Hotel Rosário La Paz (maravilhoso e muito aconchegante, por sinal), que fica bem no 'fervo' do comércio de rua da cidade. Logo cedo, pessoas de várias cidades da Bolívia trazem seus produtos de confecção para vender no atacado ou varejo. Ao longo do dia, o comércio vai sendo substituído por outros itens e, à noite, a rua é tomada por novas cholas trazendo artigos importados como sapatos, roupas, brinquedos, etc.

Elas não gostam de ser fotografadas e, normalmente, não me sinto confortável para tirar fotos de pessoas, principalmente quando sei que elas não concordariam. Mas como já estava planejando este tributo a essas mulheres fortes que carregam tudo nas costas - seus produtos, seus filhos e seu país - resolvi fazer uma pequena coleção de fotos.

Feira de artesanato em Puno, Peru. Estas senhoras estavam crochetando e tricotando artigos para vender. Muitas fazem seus trabalhos manuais dentro de suas barracas, trabalham o tempo todo vendendo ou produzindo.
Ruínas de Tiwanaku, Bolívia. 

Apresentação em Puno, Peru, em procissão em homenagem à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Candelária. Estas cholas estilizadas me fizeram pensar em que lindo seria uma escola de samba homenageando o povo dos Andes.
Em seus panos, elas carregam de tudo: comidas, flores, roupas, filhos e um país inteiro.
Depois de dois dias percorrendo a Bolívia, comecei a ficar intrigada  - como é que esse chapeuzinho de circunferência menor do que a circunferência da cabeça para em cima da cabeça? Perguntei a esta senhora se havia algum elástico ou algum dispositivo por dentro do chapeu para isso. Ela tirou o chapeu e mostrou: não há nada. O chapeu, simplesmente, fica aí, paradinho, bonitinho o dia todo...
E prá quem pensa que as cholas pararam no tempo... esta elegantíssima senhora estava comprando um celular super moderno. 
Estas foram as tranças mais caprichadas que vi durante a viagem. O casaco é de crochê e, é claro, foi feito por ela.
Do lado boliviano da fronteira em Peru e Bolívia, uma chola cambista.
Na fronteira com Peru e Bolívia, do lado peruano. Cena comum no campo. Vejam que os chapeus no Peru já são diferentes dos chapeus da Bolívia.
Em Puno, Peru. Muito bonito as tranças compridas amarradas nas pontas.
Nas proximidades de Cuzco, Peru. O chapeu é totalmente diferente e a saia também. Na Bolívia, as cholas usam saias com  babados (4-5 babados) e longas. Em Cuzco, é comum vê-las com saias godê, sem babados.

domingo, 29 de maio de 2011

Gracias a la vida, que me ha dado tanto...

Foi pouco tempo lá... e nem deu tempo para fazer nenhum passeio... mas foi o suficiente para descansar a cabeça e desacelerar pois eu saí de uma sequência de três meses massacrantes: de março a maio, foram 3 regionais, um nacional e uma série de outros compromissos no meio do caminho.

Visitei a Catedral Metropolitana em Santa Cruz de la Sierra, gosto de visitar lugares sagrados. Não que seja religiosa, nada disso... mas gosto de dar uma olhadinha e sempre celebrar a vida e a generosidade dela comigo. Quem diria que, em três anos, conseguiria reorganizar a minha vida da forma como aconteceu? Então, eu só posso entrar e sair cantando a música da Mercedes Sosa, que eu adoro... Gracias a la vida, que me ha dado tanto...



A catedral me pareceu extremamente bem preservada e muito limpa. O nome certo é Basílica Menor de San Lorenzo Martir, ela foi construída em meados do século XIX e foi tombada pelo Patrimônio Cultural em 2004. Na torre direita, tem um mirante. A gente sobe 162 degaus em quatro lances e chega até o topo da torre onde está o mecanismo dos relógios. A visão é muito bonita. Como a cidade é plana, dá para ver bem longe.