"Toda viagem deveria oferecer oportunidades para uma maior compreensão de si - e, na verdade, muitos livros de viagens são autobiografias disfarçadas: livros sobre o viajante, e não sobre o lugar" (Paul Theroux)
A Praça Tenreiro Aranha é um ponto legal para comprar artesanato em Manaus. São cerca de 20 quiosques, a maior parte deles atendidos por pessoas de origem indígena. Foi muito legal passar a tarde lá, para conversar e conhecer um pouco da diversidade de culturas e técnicas. Prá quem é paulista (ou mineiro ou gaúcho ou tudo isso junto como eu), índio é índio e ponto final. A gente não tem noção da grande diversidade de culturas e crenças debaixo do rótulo guarda-chuva de 'índio'. Conversei hoje com ticunas, wananos e yanomamis. Agora... além da beleza do artesanato dessas etnias, me chamou a atenção a forte presença do artesanato peruano. Segundo uma das artesãs com as quais conversei, os índios Ticuna (que habitam tanto o Amazonas quanto o Peru) viajam de um lado pro outro trazendo artesanato de lá prá cá. Ouvir isso me fez lembrar na hora da música do John Lennon... 'imagine there's no countries, it's easy if you try'... ticunas são ticunas no Brasil ou no Peru... para quê fronteiras, né?
Agora... se - como eu - você se importa com a procedência das peças, é bom sempre perguntar pro vendedor de onde elas vieram.
Praça Tenreiro Aranha
Arte Wanano
Amo este colorido
Bichos preguiça de Mongulu, acho que é a mesma coisa que miriti
Sous plaits de palha...mandalas maravilhosas
A
Arcos, flechas e paus de chuva
Cestaria Yanomai
Pente de índio
Comprando, ou melhor, investindo no Mercado das Pulgas
No post anterior, mostrei algumas fotos do centro histórico de Cusco. É a parte que todo mundo visita, é a parte que aparece nos sites de turismo... mas tive a sorte de cair meio por acaso numa parte não turística da cidade, nos arredores do Mercado Central. Lá, a gente vê as roupas típicas de verdade e não aquelas roupas típicas feitas para tirar fotos com turistas em troca de 1 Nuevo Sol. Lá, em alguns momentos, eu era a única não chola na rua e talvez me olhassem com a mesma surpresa com que eu olho as cholitas nas ruas...
Brasileiro sabe que nosso território já foi habitado por índios. Mas, para nós, é bem fácil esquecer isso. A cultura indígena não está presente no país, mesmo em estados onde eles são numericamente mais abundantes. Por exemplo, quando fui a Roraima... encontrei alguns elementos da cultura indígena esparramados por aí... uma comida, uma música... uma ou outra pessoa com traços indígenas... em Campo Grande, a mesma coisa... a gente sabe que os índios existem, mas não vê.
Agora... em Santa Cruz de la Sierra, e bem diferente. As cholas estão em toda parte - nas esquinas vendendo laranjas, bebidas ou comidas típicas... na porta das igrejas pedindo dinheiro aos turistas... lendo cartas de tarot no meio da rua... são mulheres de aparência rude e sofrida. E que não gostam de ser fotografadas. Isso havia lido... e esta semana comprovei. Uma delas, ao perceber que tirava minha máquina da bolsa, foi logo fazendo um gesto nada amigável. Por esse motivo, minhas fotos trazem cholas de costas rssssssssss
Não sei de onde vem meu interesse pela Geologia porque, se tem uma coisa que não tem na minha família e no meu círculo de amizades, são geólogos. Mas pensar em Geologia ajuda a manter clara a dimensão da nossa insignificância perante o tempo infinito. Pensar que uma gema pendurada no meu pescoço foi formada há milhões de anos... é, no mínimo, uma forma de celebrar nossa efemeridade e nossa insignificância.
Mas vamos lá... adoro pedras e adoro joias. Então me chamou muito a atenção quando li uma placa numa joalheria em Santa Cruz de la Sierra 'Bolivianita, la gema boliviana'... e dava a entender que era algo exclusivo da Bolívia. Entrei, óbvio. E me encantei com o que vi. A bolivianita é uma mistura de citrino com ametista, também chamada de ametrino. O degradê de amarelo a lilás é incrível e algumas lapidações conseguem efeitos que me prendem a atenção por longo tempo.
Geologicamente falando, a bolivianita surgiu devido a duas forças eletromagnéticas que colidiram. A mina Anahí - única conhecida no mundo - é localizada no pantanal boliviano, a cerca de 30 km da fronteira entre Brasil e Bolívia.
Conta a lenda que as duas cores se uniram como resultado da trágica história de amor entre uma princesa ayoreana (Anahí) e um conquistador alemão (Don Felipe de Urriola y Goitia). O cacique, pai de Anahí, presenteou o casal com uma mina de bolivianita, mas o espanhol só estava interessado em ouro e prata. Quando o casal planejou ir para a Espanha, a tribo decidiu sacrificar Anahí para evitar que ela a abandonasse. Quando ela estava para morrer, nos braços do seu amado, ela deu a ele de presente um colar. Quando ele olhou para a gema de duas cores, entendeu que ela representava o coração de Anahí divivido entre o amor por sua tribo e o amor por seu marido.
E esta é a cruceñita. Infelizmente, não consegui nenhum detalhamento sobre ela na internet. Se você entrar 'cruceñita' no Google, vai encontrar muitas páginas, mas nada a ver com pedras preciosas... É um quartzo verde escuro cortado por um quartzo incolor. Incrível e de tirar o fôlego também. Tem esse nome porque traz as cores da província de Santa Cruz de la Sierra.
Prá mim, programa de índio significa algo super legal! Dei hoje uma voltinha no Mercado Municipal de Campo Grande porque o taxista falou que algumas índias vendem seus produtos ali perto. São três quiosques externos, onde elas vendem palmito, artesanato, frutas, conservas de pimenta e pequi, feijão verde, soluções milagrosas e uma infinidade de artigos preparados por elas. O que me pareceu mais curioso hoje foi o leite de mangaba, que é bom para diabetes e não sei mais quantas doenças. Os etnobotânicos devem ter no Brasil um dos lugares mais ricos para trabalhar. É muito legal escutar essas histórias. Se me fosse dada a chance de escolher entre uma semana na Europa e uma semana numa tribo tradicional... eu certamente escolheria a tribo. Adoro índio, acho que ia adorar fazer todos os programas de índio possíveis e imagináveis, principalmente a cerâmica e assistir aos rituais e festas de celebração da colheita...
Pequi, pimentas e feijão verde
Um dos quiosques, com os palmitos em destaque. Me falaram que tem o doce e o amargo...
O líquido branco é leite de mangaba. Santo remédio para diabetes e outras tantas doenças
Não sei quem foi o gênio que cunhou a expressão "programa de índio" para referir-se a algo enfadonho ou fadado a dar errado. Mas... não que eu seja uma pessoa violenta... muito pelo contrário... mas seria capaz de encher uma pessoa dessa de bolacha... pelo preconceito que a expressão traz subentendido... ou melhor, superentendido... não que eu seja praticante de 'programas de índio', nem indianista, nada disso... só que qualquer manifestação de preconceito ou racismo me deixa braba prá valer.
Estou em Campo Grande e a cidade, em si, não tem muitos elementos de cultura indígena, pelo menos na parte que eu conheço. Mas tem um Museu do Índio e o Memorial de Cultura Indígena... e as índias perto do Mercado Municipal vendendo seus produtos. O Memorial já conhecia. Estive lá em 2007 com a Simone, quando viemos para o Regional de Campo Grande. Na ocasião, comprei um colar com um elemento de palha guarani que, me explicaram, é um símbolo de união de todos os povos indígenas. Lindo isso e tão marcante que até hoje tenho e uso o colar. E tinha dezenas ou centenas dele hoje expostos no Memorial.
A diretora do Memorial explicou hoje que eles vendem mercadorias produzidas por representantes das etnias Terena, Guarani e Kadiweu. Cada uma tem sua identidade e técnica... e como resultado, artesanatos totalmente diferentes uma da outra. Então, para não ser acusada de tratamento discriminatório, comprei um pouco de cada ;0)
Já ia esquecendo - aprendi duas coisinhas em Terena (que é a etnia da diretora do Memorial):
Nake'yeye' nóe - que quer dizer oi, como vai, tudo bem... uma saudação dirigida a um grupo
Ainapoyakoe Sime'evi - agradecemos sua visita
Arte Terena, me encantou esta cerâmica, muito fina.
Arte Guarani - esses 'canudos' de palha simbolizam a união e a harmonia entre todos os povos indígenas. Eles fazem também chaveiros. Tentei comprar 200 para presentear os participantes do ENFISA, mas não tinha...
Arte Kadiweu, índios cavaleiros e que lutaram na II Guerra Mundial.
Minha mãe ri de mim porque sempre que vou para algum lugar e gosto, volto dizendo que ainda vou morar nesse lugar. Fazendo a conta assim, por cima... são uns 8 ou 10 lugares onde tenho vontade de morar... se morar na média de 10 anos por cidade... precisarei de mais 80-100 anos... então... tem várias soluções possíveis para esse imbróglio cronológico: ou reduzo o número de lugares onde quero morar... ou reduzo a duração da minha estada em cada um desses lugares... ou... vivo 139 anos... ou sossego um pouco, fico em BH viajando sempre para esses lugares e muitos outros... bom... digamos que por uma questão de atendimento à Lei do Mínimo Esforço... a última alternativa é a que, hoje, me parece mais atraente. Gosto, afinal, de BH e não tenho motivo para querer sair daqui por enquanto... mas... o fato é que gosto tanto de Boa Vista a ponto de incluir a cidade na minha lista de cidades que me apaixonam... junto com Belém, Macapá, Maceió, San Salvador, Quito e outras tantas... a comida... já falei... a natureza... já falei... as oportunidades de trabalho... não falei... mas creiam-me... há muita oportunidade por lá... agora... quero mostrar uma música... uminha só... que conheci no jantar no Bicho do Rio... não entendo metade das palavras que ele diz... mas a melodia... é tão linda...
Procurei a letra da música na internet, mas não encontrei... encontrei apenas uma explicação sobre o que é parixara:
O Aleluia é o principal ritual dos Ingarikó, mas o parixara é um dos mais tradicionais do grupo e visa à celebração da colheita. Às vezes, quando o parixara é dançado, por ocasião de eventos festivos na safra de dezembro, nele podem ser agregados um conjunto de eventos.
Cabe apontar um evento que vem sendo pouco praticado pelo grupo por ocasião da caçada, momento em que se realiza o parixara. Os caçadores akamana, que ao longo de 15 dias estiveram ausentes da comunidade, são recebidos pelas mulheres. Nesse contexto, abastecidas de caxiri as mulheres se deslocam, ainda na mata espessa, para receber os seus maridos. Todos chegam à aldeia cantando e dançando, em seguida mais caxiri é servido e posteriormente a caça é dividida entre todas as famílias. A narração dos diversos eventos ocorridos durante a caçada dá-se em qualquer momento após a chegada dos caçadores. O parixara pode ser imediatamente iniciado e geralmente só termina quando o caxiri acaba.
Há alguns anos, mantenho um blog de artesanato (http://eupintoebordo.blogspot.com e http://eupintoebordo.zip.net) pois este é o meu hobby desde que me entendo por gente... aliás, o Eu Pinto e Bordo foi criado antes mesmo deste Diário de Bordo. E então eu vinha alimentando os dois como se fossem o lado A e o lado B da mesma pessoa. Afinal, são universos totalmente diferentes... mas aí tava esses dias pensando... por que fazer dois blogs se a vida é uma só, né? Afinal, falar em lado A e lado B só fazia sentido na época de LP, né? Vamos fazer um só, né?
Bom... visitei hoje a Feira Nacional de Artesanato em BH. Gigantesca, maravilhosa, imperdível. São centenas de expositores do Brasil todo e de vários países da América do Sul, Turquia e outros. Sempre me encantou o trabalho feito a mão e os materiais utilizados pelas diferentes culturas para criar arte.
Tudo lindo, tudo maravilhoso. Vi uma apresentação de um grupo andino que me emocionou muito. Sí, sigue llamándome la cordillera... e vi também uma manifestação que me apaixonou demais, que foi uma mostra de arte indígena brasilelira. Segundo a Wikipedia, há 236 etnias indígenas no Brasil somando cerca de 365 mil pessoas, com média de 1.752 representantes de cada etnia. No entanto, 160 etnias têm menos de 1.000 representantes e 52 etnias têm menos de 100 representantes. Um dos menores grupos é o dos Avá-Canoeiros que comentei recentemente. Fico imaginando o que seria o Brasil se os europeus não tivessem 'colonizado' as nossas terras. Quanta cultura se perdeu? Quanta sabedoria milenar se perdeu? Sim, milenar... afinal nossas terras, ou melhor, a terra deles é habitada há pelo menos 18 mil anos... a gente é que tá aqui de intruso... Fico pensando também... e se, ao invés dos espanhois colonizarem o México, os astecas tivessem colonizado a Espanha... como seria? Pensar nisso me entristece e também não faz sentido. Mas, enfim, voltemos à superfície...
Chamou a atenção o trabalho da etnia Umutina e tive a chance de conversar com o Itamar Maetawa Tan-Huare Huare. Ele me falou que são, hoje, 520 representante dessa etnia vivendo no MT. No entanto, a me informei depois na Wikipedia fala em apenas 120. Ele pediu para tirar uma foto para guardar pois nunca tinha conversado com uma japonesa. Bom, tá valendo, afinal eu também nunca tinha tirado uma foto com um índio de verdade! Ah, uma dessas bonequinhas veio para a minha coleção.
Esse passeio me fez lembrar uma musiquinha que eu adoro da Rita Lee...
BAILA COMIGO Rita Lee/ Roberto de Carvalho
Se Deus quiser Um dia eu quero ser índio Viver pelado Pintado de verde Num eterno domingo Ser um bicho preguiça Espantar turista E tomar banho de sol Banho de sol! Banho de sol! Sol!... Se Deus quiser Um dia acabo voando Tão banal assim Como um pardal Meio de contrabando Desviar do estilingue Deixar que me xingue E tomar banho de sol Banho de sol! Banho de sol! Banho de sol!... Baila Comigo! Como se baila na tribo Baila Comigo! Lá no meu esconderijo Ai! Ai! Ai! Baila Comigo! Ah! Ah! Uh! Uh! Como se baila na tribo Oh! Oh! Baila ba, ba Baila Comigo! Lá no meu esconderijo... Se Deus quiser Um dia eu viro semente E quando a chuva Molhar o jardim Ah! Eu fico contente E na primavera Vou brotar na terra E tomar banho de sol Banho de sol! Banho de sol! Sol!... Se Deus quiser Um dia eu morro bem velha Na hora "H" Quando a bomba estourar Quero ver da janela E entrar no pacote De camarote... E tomar banho de sol Banho de sol! Banho de sol! Banho de sol!... Baila Comigo! Como se baila na tribo Uh! Uh! Uh! Baila ba, ba Baila Comigo! Lá no meu esconderijo Ai! Ai! Oh! Baila Comigo! Ah! Ah! Uh! Uh! Como se baila na tribo Baila ba, ba Baila Comigo! Lá no meu esconderijo Ai! Ai! Ai!... Sol! Sol! Sol!... E tomar banho de sol Banho de sol! ...
Há muitos anos essa música toca na minha cabeça... desde o tempo do ballet Vitória Régia... ou seja, mais de 20 anos. E eu cantarolava sem saber o significado de avá canoeiro... e hoje vendo o Globo Repórter sobre o Rio Araguaia, finalmente, aprendi que se trata de um povo tupi perto da extinção. Grandão demais este meu país. Mesmo que eu viva 100 anos, não vou conseguir conhecer tudo...
OS Avá-Canoeiros são um povo tupi que ocupava amplos domínios, ao longo do médio e baixo rios Tocantins e Maranhão, atualmente parte Estado de Goiás e parte Estado do Tocantins. Chegaram a somar 5 mil pessoas, porém, hoje somam apenas 22 indivíduos, distribuídos na reserva de Minaçu, em Goiás, e Ilha do Bananal, no Rio Araguaia, no Tocantins. São um povo em extinção e um retrato desses 500 anos de Brasil.
FRENTES de contato da Fundação Nacional do Índio (Funai) tentam há 10 anos encontrar outros avás no nordeste goiano e sudoeste tocantinense, mas nenhum 'novo' índio foi localizado. Em outra frente, o Instituto de Pré-História e Antropologia da Universidade Católica de Goiás (UCG) e o chefe do posto da Funai de Minaçu, Valter Sanchez, vêm promovendo encontros entre os dois grupos, em uma tentativa de aproximá-los, estreitar as amizades e, quem sabe, poder ver, em alguns anos, casamentos entre os adolescentes, o que pode significar uma esperança de perpetuação desse povo.
OS DOIS grupos têm a mesma história triste e violenta. A situação atual é resultado de séculos de guerra dos canoeiros - nome dado graças à sua habilidade de usar canoas - contra as sucessivas levas de homens brancos que, munidos do diferencial de terem armas de fogo, invadiram suas terras para transformá-las em fazendas.
ESSA invasão começou a ganhar força no século 18 e gerou tantos confrontos e genocídios que, já em 1860, os avás estavam tão reduzidos que não podiam mais lutar contra os invasores. Mesmo assim, a coragem e a determinação canoeiras iriam atravessar o tempo. Cem anos depois - na década de 60 do nosso século - as lutas continuavam. Foi, então, em Campinaçu, norte de Goiás, que aconteceu o último e definitivo episódio contra a nação canoeira. Fazendeiros armados até os dentes fizeram uma emboscada contra a última aldeia avá que ainda existia e promoveram um genocídio. Eram centenas de índios, mas só sobreviveram os poucos que conseguiram fugir, entre eles alguns dos dois grupos de hhoje. Desde, então, tornaram-se o que Dulce chama de "povo invisível", pois passaram a não deixar pistas e nem a ser vistos.
O GRUPO DE MINAÇU é inteiramente avá e foi contatado em 1983, perto da aldeia atual. Vive na reserva de 38 mil hectares, junto ao Rio Tocantins, dos quais 3 mil foram ocupados pela usina hidrelétrica de Serra da Mesa, que lhes paga royalties. Têm casas de alvenaria, comida boa, assistência e os seus cachorros têm até carteira de vacinação. Com quatro adultos, um adolescente e uma criança, são, a começar dos nomes (Iawi, Tuia, Nakwatxa...), a memória viva do que sua nação foi um dia. São eles também os únicos que ainda falam um pouco da língua avá, mantêm alguns dos rituais e plantam e caçam. Contudo, as constantes fugas pelo mato e o fato de os bebês chorarem e denunciaram suas presenças fizeram com que o grupo passassem a evitar filhos. Depois do nascimento dos dois jovens (Trumak, 11 anos, e Putdjawa, 9), decidiram não ter mais filhos. E não falam mais sobre o assunto.
O GRUPO DA ILHA do Bananal, no Rio Araguaia, vive uma situação menos confortável e mais aculturada. Apareceram para a sociedade nacional em dois momentos. Em 1973, cinco deles foram contatados e, um ano depois, outros quatro apareceram. Eram seis adultos e três crianças. Após alguns meses, quatro dos adultos morreram de gripe. Os sobreviventes foram transferidos de lugar para lugar até serem colocados em definitivo na aldeia de Canoanã, no Bananal, onde vários povos indígenas convivem. Com o tempo, misturaram-se com alguns deles, particularmente os Javaés e os Tuyás, o que resultou em novos filhos - todos batizados com nomes de brancos, como Angélica, Cilene e Diego.
DE INÍCIO não foi fácil. Os Javaés não aceitavam os canoeiros, pois sempre foram inimigos históricos. Aos poucos, o quadro mudou. Os avá foram ocupando seus espaços, mas isso não impediu que, ainda hoje, sejam discriminados e tratados como subalternos e que vivam na miséria e no abandono. A sua dieta, por exemplo, entre ano sai ano, se resume ao máximo a arroz, farinha e peixe. Os mais antigos sonham em viver na Mata Azul, uma exuberante formação vegetal no sul do Estado do Tocantins, onde seus antepassados, que viveram dias de glória ali, estão sepultados. A área, contudo, já foi incorporada ao 'sistema produtivo nacional'.
NESSE contexto, parecem não haver motivos para que os avá do Bananal não queiram ir para a reserva em Minaçu, como propõe a UCG e o posto da Funai local, mas as coisas não são tão simples. Mesmo com origens comuns, os dois grupos tiveram destinos diferentes, o que resulta em nuances de valores, identidades e convivências. "É preciso promover encontros periódicos para que os vínculos sejam maiores", explica Dulce. Os resultados desses esforços só serão revelados pelo futuro. Os dois grupos podem tornar-se mais que amigos, porém nada garante que vão se unir e virar parentes. Em todo caso, se unirem, as chances de não se extinguirem como nação indígena continuarão pequenas; se não se unirem, a extinção torna-se uma questão de tempo. Pouco tempo.
*Reportagem de Paulo José *Foto de Luiz Eduardo Jorge Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2000)