"Toda viagem deveria oferecer oportunidades para uma maior compreensão de si - e, na verdade, muitos livros de viagens são autobiografias disfarçadas: livros sobre o viajante, e não sobre o lugar" (Paul Theroux)
De todas as qualidades do Brasil, uma das que mais aprecio é a convivência pacífica entre pessoas das mais diferentes origens, orientações políticas e crenças. Aqui, é mais fácil dar briga por rivalidade entre torcidas de times de futebol do que por diferenças entre religiões. Isso porque, no Brasil, os sentimentos de 'ingroup' de natureza religiosa, política, racial ou social são fracos. Sentimentos esses que, em outros lugares, levam membros de um determinado grupo a hostilizar aqueles que não pertencem ao grupo (ou seja, o 'outgroup'). Este é o país da mobilidade: você pode ser batizado na igreja católica ao nascer e, depois, optar por ser zen budista... ou pode nascer em berço esplêndido e morrer falido... ou... o lado ruim da mobilidade - pode trocar de partido político 10 vezes ao longo de sua carreira que seus eleitores esquecem...
Eu já conhecia Curitiba, fui várias vezes prá lá a trabalho ou para visitar familiares... mas nunca tinha tido a chance de ir ao Largo da Ordem. Era uma tarde ensolarada de domingo e foi muito legal ver a feira de artesanato e comer num raio de 100 m desde empanadas uruguaias até pierogs poloneses... sem falar nos tacos mexicanos, pratos libaneses e outras tantas iguarias que me tentaram. Agora, o melhor de tudo... foi ver a diversidade de crenças religiosas representadas num espaço tão pequeno: tinha desde um show de música católica logo na chegada e uma igreja linda, azul como o ceu... tinha uma igreja presbiteriana... uma barraca de Hare Krishnas com seus mantras... e até uma mesquita!
Eu nunca tinha entrado numa mesquita. Aliás, a não ser por algumas poucas leituras e conversas com amigos muçulmanos, meu conhecimento sobre o Islã é limitadíssimo. Então, foi muito legal ter entrado e recebido algumas informações lá com o pessoal. O ambiente, no geral, é muito clean. Nada de imagens, nada de ícones... uma palavra aqui ou ali... e tudo muito equilibrado... muita paz. Comentei com o senhor que me recebeu sobre a diversidade que tinha notado no Largo. Ele me falou que além das que mencionei, há um templo budista e também uma sinagoga nos arredores.
Viva o Brasil com sua tolerância religiosa e respeito às diferenças. Aqui, nunca haverá guerra santa. A Mesquita, no Largo da Ordem, em Curitiba Foto de Meca... sabia que todo muçulmano tem que peregrinar pelo menos uma vez a Meca... e rezar voltado para Meca... e perguntei ao meu guia se Meca ficava localizada na direção da foto. Para minha surpresa, ele falou que Meca fica na direção oposta à foto. Estranhei... e ele explicou que os muçulmanos não adoram imagens.
Igreja Presbiteriana. Esta não visitei... fica prá próxima...
Estar em Manaus traz prá mim sempre a sensação de voltar a um ponto inicial. Sim, afinal, foi para lá minha primeira viagem de avião aos 16, minha primeira viagem sem um adulto para tomar conta de mim, minha primeira viagem para a região Norte... já na época, eu dava sinais claros de que era meio 'diferente' pois preferi ir para lá ao invés de ir para a Disney... isso, há quase 25 anos, era prá lá de esquisito em um adolescente... mas, para mim, era algo muito natural querer conhecer meu país e o maior rio do mundo... Como o trabalho começava na segunda-feira de manhã, optei por ir no domingo cedo, de forma que poderia aproveitar a parte da tarde fazendo um passeio. E assim foi. Pela terceira vez, lá fui eu ver o encontro das águas dos rios Negro e Solimões... ver bicho preguiça, jiboia, jacaré... e me apaixonar pela enésima vez... amo muito a região Norte do Brasil, tudo tão grande, tão sui generis, tão desafiador...
Estação Hidroviária do Amazonas. Aqui, você pode contratar um barco ou lancha e fazer passeios em grupos ou individuais.
Mercado do peixe - aqui é onde se entrega e comercializa o que sai de dentro desse riozão.
Paradinha para ver a floresta com árvores imensas - samaúmas, castanheiras e um sem número de espécies...
Samaúma... não sei dizer quantos metros tem essa árvore... talvez uns 30... 40... é a que se chama no México e América Central de ceiba... disse o guia que os índios batem no tronco e o som ecoa por uns 5 km e esses sons são usados para comunicação. Telefone da selva...
Raízes da samaúma
Posto de combustível flutuante. Existem às dezenas na proximidade de Manaus.
Paradinha para ver as vitórias régias.
Antes, havia muitos barcos e casas com bichos da selva prá gente conhecer e tirar foto... agora, sobraram poucos por motivos óbvios... eu penso o seguinte - turista gosta de ver os bichos de perto e, antes de proibirem, as autoridades deveriam criar uma estrutura tipo um zoológico flutuante, why not?
Quem é que não se encanta com este bicho?
Em algum lugar nesta foto tem um bicho preguiça...
Junto à Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa, está localizado o Museu da Lapinha. Não sou frequentadora assídua de museus e não entendo o suficiente de Antropologia para opinar sobre a relevãncia das peças exibidas nesse museu... mas a minha sensação é de que as descobertas lá mereceriam uma atenção maior, um espaço maior e mais divulgação.
Peter Lund descobriu ali fósseis humanos com mais de 12.000-8.000 anos, denominados de Homem de Lagoa Santa. Pelo que li no museu, essa população apresentava características diferentes dos índios sul-americanos. A hipótese é que se trate de descendentes de uma linhagem que saiu da África há cerca de 100.000 anos e se dispersou para a Região Australasiana e, depois para as Américas através do Estreito de Behring. A outra linhagem, mongólica, só chegou à América do Sul 5.000 anos depois do Homem de Lagoa Santa. A reconstituição da face de Luzia - o fóssil mais antigo já encontrado nas Américas - deixa aparente a semelhança com as atuais populações australasianas e africanas... não tem nada de mongoloide como as populações indígenas sul-americanas atuais... se supõe, também, que esta linhagem tenha se extinguido devido ao tamanho pequeno da população e efeitos deletérios da endogamia.
Foi um final de semana de reencontro com professores da Bio... na Serra do Cipó reencontrei Ana Maria Giulietti e Nanuza Menezes. Na Lapinha reencontrei Walter Neves.
Museu da Lapinha, em Lagoa Santa
Luzia, a mais antiga moradora humana da América do Sul
Os mortos eram enterrados em posição fetal. Primeiro, eram enterrados e depois os restos mortais eram recolhidos em urnas funerárias.
Já tive oportunidades e continuo recebendo propostas para morar fora do Brasil... mas isso nunca esteve nos meus planos. Saio, viajo, curto tudo quando vou para outro país... mas não troco este Brasil por nenhum outro... Estou convicta de que este país tem uma boa proporção prazer: custo. Talvez a mais alta do mundo.
Na entrevista do programa americano 60 minutos, comenta-se muito sobre o caráter pacífico do povo brasileiro. Como disse o Eike Batista, "Para quê fazer guerra com todos estes prazeres? Vamos à praia, jogar futebol...". Atribuo este caráter pacífico à inexistência de sentimentos de ingroup que levariam ao crescimento de sentimentos hostis a outgroups. Nós toleramos tudo. Nós recebemos todo mundo que vem de fora com toda a hospitalidade. Nós somos tão crentes de que Deus é brasileiro que acreditamos que nada nunca vai nos faltar. E, talvez, isso seja verdade, afinal...
Há muitos anos essa música toca na minha cabeça... desde o tempo do ballet Vitória Régia... ou seja, mais de 20 anos. E eu cantarolava sem saber o significado de avá canoeiro... e hoje vendo o Globo Repórter sobre o Rio Araguaia, finalmente, aprendi que se trata de um povo tupi perto da extinção. Grandão demais este meu país. Mesmo que eu viva 100 anos, não vou conseguir conhecer tudo...
OS Avá-Canoeiros são um povo tupi que ocupava amplos domínios, ao longo do médio e baixo rios Tocantins e Maranhão, atualmente parte Estado de Goiás e parte Estado do Tocantins. Chegaram a somar 5 mil pessoas, porém, hoje somam apenas 22 indivíduos, distribuídos na reserva de Minaçu, em Goiás, e Ilha do Bananal, no Rio Araguaia, no Tocantins. São um povo em extinção e um retrato desses 500 anos de Brasil.
FRENTES de contato da Fundação Nacional do Índio (Funai) tentam há 10 anos encontrar outros avás no nordeste goiano e sudoeste tocantinense, mas nenhum 'novo' índio foi localizado. Em outra frente, o Instituto de Pré-História e Antropologia da Universidade Católica de Goiás (UCG) e o chefe do posto da Funai de Minaçu, Valter Sanchez, vêm promovendo encontros entre os dois grupos, em uma tentativa de aproximá-los, estreitar as amizades e, quem sabe, poder ver, em alguns anos, casamentos entre os adolescentes, o que pode significar uma esperança de perpetuação desse povo.
OS DOIS grupos têm a mesma história triste e violenta. A situação atual é resultado de séculos de guerra dos canoeiros - nome dado graças à sua habilidade de usar canoas - contra as sucessivas levas de homens brancos que, munidos do diferencial de terem armas de fogo, invadiram suas terras para transformá-las em fazendas.
ESSA invasão começou a ganhar força no século 18 e gerou tantos confrontos e genocídios que, já em 1860, os avás estavam tão reduzidos que não podiam mais lutar contra os invasores. Mesmo assim, a coragem e a determinação canoeiras iriam atravessar o tempo. Cem anos depois - na década de 60 do nosso século - as lutas continuavam. Foi, então, em Campinaçu, norte de Goiás, que aconteceu o último e definitivo episódio contra a nação canoeira. Fazendeiros armados até os dentes fizeram uma emboscada contra a última aldeia avá que ainda existia e promoveram um genocídio. Eram centenas de índios, mas só sobreviveram os poucos que conseguiram fugir, entre eles alguns dos dois grupos de hhoje. Desde, então, tornaram-se o que Dulce chama de "povo invisível", pois passaram a não deixar pistas e nem a ser vistos.
O GRUPO DE MINAÇU é inteiramente avá e foi contatado em 1983, perto da aldeia atual. Vive na reserva de 38 mil hectares, junto ao Rio Tocantins, dos quais 3 mil foram ocupados pela usina hidrelétrica de Serra da Mesa, que lhes paga royalties. Têm casas de alvenaria, comida boa, assistência e os seus cachorros têm até carteira de vacinação. Com quatro adultos, um adolescente e uma criança, são, a começar dos nomes (Iawi, Tuia, Nakwatxa...), a memória viva do que sua nação foi um dia. São eles também os únicos que ainda falam um pouco da língua avá, mantêm alguns dos rituais e plantam e caçam. Contudo, as constantes fugas pelo mato e o fato de os bebês chorarem e denunciaram suas presenças fizeram com que o grupo passassem a evitar filhos. Depois do nascimento dos dois jovens (Trumak, 11 anos, e Putdjawa, 9), decidiram não ter mais filhos. E não falam mais sobre o assunto.
O GRUPO DA ILHA do Bananal, no Rio Araguaia, vive uma situação menos confortável e mais aculturada. Apareceram para a sociedade nacional em dois momentos. Em 1973, cinco deles foram contatados e, um ano depois, outros quatro apareceram. Eram seis adultos e três crianças. Após alguns meses, quatro dos adultos morreram de gripe. Os sobreviventes foram transferidos de lugar para lugar até serem colocados em definitivo na aldeia de Canoanã, no Bananal, onde vários povos indígenas convivem. Com o tempo, misturaram-se com alguns deles, particularmente os Javaés e os Tuyás, o que resultou em novos filhos - todos batizados com nomes de brancos, como Angélica, Cilene e Diego.
DE INÍCIO não foi fácil. Os Javaés não aceitavam os canoeiros, pois sempre foram inimigos históricos. Aos poucos, o quadro mudou. Os avá foram ocupando seus espaços, mas isso não impediu que, ainda hoje, sejam discriminados e tratados como subalternos e que vivam na miséria e no abandono. A sua dieta, por exemplo, entre ano sai ano, se resume ao máximo a arroz, farinha e peixe. Os mais antigos sonham em viver na Mata Azul, uma exuberante formação vegetal no sul do Estado do Tocantins, onde seus antepassados, que viveram dias de glória ali, estão sepultados. A área, contudo, já foi incorporada ao 'sistema produtivo nacional'.
NESSE contexto, parecem não haver motivos para que os avá do Bananal não queiram ir para a reserva em Minaçu, como propõe a UCG e o posto da Funai local, mas as coisas não são tão simples. Mesmo com origens comuns, os dois grupos tiveram destinos diferentes, o que resulta em nuances de valores, identidades e convivências. "É preciso promover encontros periódicos para que os vínculos sejam maiores", explica Dulce. Os resultados desses esforços só serão revelados pelo futuro. Os dois grupos podem tornar-se mais que amigos, porém nada garante que vão se unir e virar parentes. Em todo caso, se unirem, as chances de não se extinguirem como nação indígena continuarão pequenas; se não se unirem, a extinção torna-se uma questão de tempo. Pouco tempo.
*Reportagem de Paulo José *Foto de Luiz Eduardo Jorge Altiplano.com.br (Goiânia, Goiás, Brasil, 2000)
Tem gente que me pergunta de onde vem tanto pique... tem gente que diz que se cansa só de ouvir eu falar das minhas atividades... tem gente que fica zonza só de imaginar as minhas idas e vindas... tem gente que não entende como é que, com uma agenda como a minha, eu ainda arranjo tempo para fazer cursos de artesanato... e eu, apenas faço dar risada... Que eu sou hiperativa não é novidade para ninguém. Meu cérebro parece que roda numa velocidade alucinante para a maioria das pessoas que convive comigo.
Acabei de chegar em casa, depois de dois dias puxadíssimos em Brasília e Sampa. Em Brasília, em reuniões na CGAA, no DIPOV, na SDA, na SRI e no Banco do Brasil. CGAA com o Alfredo, DIPOV com a Ângela, na SDA com o Odilson e o Secretário, na SRI com a Denise e Banco do Brasil acompanhando o Evaldo e o ministro Alisson Paulinelli numa reunião com o Guedes. Sim, o Guedes que foi ministro da Agricultura e hoje é vicepresidente do BB. Fomos falar sobre o projeto de 'Inovação Tecnológica para Defesa Agropecuária' e pedir patrocínio para os mestrados profissionais. E, para terminar a maratona, em Sampa, no Grupo Pão de Açúcar sobre Análise de Risco de Pragas. Sei que a vida é um 'se vira nos 30'... e que eu adoro que seja assim.
Eu poderia estar demolida, exaurida... mas estou surpreendentemente legal. Estou feliz com o trabalho que estou realizando pois me permite desenvolver todo um novo conjunto de habilidades e também conhecer e conviver com gente interessante. Enfim, talvez esteja aí a resposta para aqueles que não sabem de onde vem o meu pique... vem da felicidade de estar realizando um trabalho bacana.